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Diário de uma viagem ao interior de São Paulo em busca de soluções para os desertos alimentares paulistanos

Ao longo dos mais de 230 km para chegar ao sítio A Boa Terra, os prédios paulistas deram espaço para vegetações típicas da Mata Atlântica em contraste também com pastos, arquiteturas que preservam casarões antigos e pequenos comércios.

Atualizado em 03/01/2026 às 11:01, por Rosiana Alda.

vista da rodoviária da cidade de São José do Rio Pardo

Vista da rodoviária da cidade de São José do Rio Pardo | Foto: Rosiana Alda

A agitada vida da capital paulista não chega ao interior, que tem uma rotina bem mais pacata com as ruas vazias, prosas nas calçadas e até bingos organizados pela igreja católica. A viagem até a bucólica cidade de São José do Rio Pardo ocorreu para a série especial “Desertos alimentares em xeque”, principalmente para compreender, de perto, como são os desertos alimentares e quais soluções conseguem combatê-los. 

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O destino oficial era a cidade de Casa Branca (SP) para entrevistar os colaboradores do sítio A Boa Terra, produtor de alimentos orgânicos. No entanto, a cidade não tinha carros de aplicativos. Pesquisei quais cidades eram mais próximas, sendo elas Itobi e São José do Rio Pardo. Por necessitar de um carro por aplicativo, escolhi me hospedar em São José do Rio Pardo, cidade com pouco mais de 55 mil habitantes. Embarquei, às 7h da manhã do dia 12 de junho (domingo), da rodoviária do Tietê e desembarquei onde vivem os Rio Pardenses às 11h30. 

Primeiro desafio: onde almoçar em São José do Rio Pardo?
 

Lanchonete de São José do Rio Pardo sem opções orgânicas | Foto: Rosiana Alda

A primeira dificuldade foi encontrar um local para almoçar. A pequena rodoviária do município tinha apenas uma lanchonete e um bar, ambos sem opção orgânica ou vegetariana (outra dificuldade a mim, que optei em não consumir mais carne). Andei por 3 minutos até um restaurante de comida caseira, mas o pequeno estabelecimento comercial não tinha mais mesas livres. Andei mais 5 minutos até encontrar uma padaria aberta. Nela, o mais natural que tinha no cardápio era o suco de laranja, comum nos comércios da cidade, e não por coincidência, pois o estado de São Paulo é o maior produtor de laranja do país, chegando a 16.707.897 toneladas em 2020 (último ano em que o IBGE disponibilizou informações sobre a safra nacional) Orgânicas? Não. 

Nesta padaria tinham dois jornais locais impressos. Comprei um exemplar de cada. Apenas em um deles havia uma pequena nota sobre os riscos do sódio, mas o texto era mais confuso que informativo.  Nela diz que “só se deve consumir até 5 g de sal, o mesmo que 2000 mg de sódio, correspondente a 1 colher de chá cheia”, porém, também indica “carne, peixe, ovos ou leite devem ser a principal fonte de sódio e, por isso, devem ser consumidos diariamente”. Em uma breve pesquisa, a USDA informa que 100 gramas de carne Acém contém 71 mg. A tilápia, 56 mg, ovo cozido tem 124 mg e no leite 44 mg, sem contar o sal adicionado no preparado de diversos alimentos. O grande problema da recomendação do jornal é não indicar uma alimentação balanceada, desconsiderando que poucas pessoas sabem exatamente a quantidade de sódio que consumiu diariamente. 

A nutricionista Milena Fernandes alerta que “o consumo excessivo do sal está relacionado ao aumento do risco de doenças crônicas, a mais comum é a hipertensão arterial que por consequência pode causar problemas cardiovasculares e lesões renais”. 

Hospedagem em um hotel simples, mas aconchegante

Após realizar o check-in no hotel, sai apenas no começo da noite para procurar outro local para jantar. Fazia 13°C na cidade. Uma pequena orquestra tocava músicas românticas no coreto da praça para um grupo de, no máximo, 20 moradores. O músico que interagia no microfone chamava as pessoas pelo próprio nome, demonstrava a típica vida do interior onde é comum conhecer todo mundo. 

A segunda experiência em um estabelecimento comercial de São José do Rio Pardo foi um ponto de alerta. O cardápio também oferecia lanches bem calóricos, não havia opção de refeições e os ultraprocessados estavam presentes na área de mercearia. Ao pedir um lanche com alface, o atendente demorou um pouquinho, veio meio sem jeito para perguntar se poderia trocar alface por milho porque não tinham a hortaliça naquele momento. Aceitei.

Ele, então, pegou um pacotinho da prateleira para finalizar o pedido. Depois disso, voltei ao hotel para dormir e acordar cedo no outro dia. 


Café da manhã incluso, mas sem orgânicos

Levantei por volta das 6h, me arrumei e desci para o café da manhã que estava incluso na hospedagem. No balcão havia a opção do café, leite, suco industrializado, iogurte, purê de batata, salsicha com molho, pão, bolo de cenoura com cobertura de chocolate, algumas bolachas doces/salgadas e potinhos com salada de fruta (mamão e melão). Havia também um cesto com frutas, mas nenhum item indicava a presença de alimentos orgânicos. 

Na hora de sair de São José do Rio Pardo rumo ao Sítio A Boa Terra percebi que, apesar de ter um serviço de carro por aplicativo disponível, faltava um detalhe: um motorista disponível. Desci a pé até a rodoviária da cidade e pedi um táxi. Seu Paulo, taxista há mais de 60 anos, saiu de São Paulo e foi viver em Rio Pardo com a esposa. Comentou que não conhecia o sítio e também não tinha costume de comprar alimentos orgânicos. Ficou surpreso ao saber da produção desse tipo de alimento há 20 minutos da sua residência.

A corrida que seria de, no máximo, R$ 50, custou R$ 120 com o taxímetro ligado.
 

Mercado em Itobi (SP) não oferece vegetais orgânicos, mesmo com produção a 20 minutos do estabelecimento | Foto: Rosiana Alda

Entrevistas em um sítio com certificação de produção orgânica

Passei o período da manhã toda com os trabalhadores do Sitio A Boa Terra. Cada personagem agregou tanto e, sim, a viagem valeu a pena. Como jornalista, eu amo estar onde a vida acontece. 

Assim que as prosas terminaram, ganhei carona com a proprietária do sítio, que me deixou em Itobi para comprar uma passagem, mas antes, fui até o maior mercado da cidade (não há nenhuma grande rede por lá) e, de fato, os alimentos produzidos tão próximos não estavam em suas prateleiras. O pequeno espaço para hortifruti somente oferecia os alimentos convencionais. Tomei um café em uma área de lanchonete, dentro do estabelecimento, sem opções saudáveis. Perde o mercado. Perde a população Rio Pardense que está em um deserto alimentar há 20 minutos de toneladas de orgânicos. 
 

O resultado desta viagem está disponível aqui: 
Desertos Alimentares em xeque
Do campo à mesa