Crônica: O andarilho
Sujo, negro e pobre. Cenário perfeito para gerar indiferença nas pessoas. Uma a uma vão passando por ele como se não existisse. Como se não houvesse importância a situação precária que aquele senhor vive. Deitado no canto da calçada, usa uma bolsa de viagem como travesseiro. Dorme. Naquele tempo de sono, a realidade some e ele não percebe os olhares preconceituosos.
Ilustração de um andarilho dormindo na rua | Ilustração exclusiva para a Esther, por Carolina Carvalho
Sujo, negro e pobre. Cenário perfeito para gerar indiferença nas pessoas. Uma a uma vão passando por ele como se não existisse. Como se não houvesse importância a situação precária que aquele senhor vive. Deitado no canto da calçada, usa uma bolsa de viagem como travesseiro. Dorme. Naquele tempo de sono, a realidade some e ele não percebe os olhares preconceituosos.
Ninguém o ajuda. Alguns por mero medo de ser uma pessoa agressiva. Outros por não se importar. Aquele tal ensinamento de Cristo sobre amar o próximo como a ti mesmo é um desafio. Os sofrimentos pessoais serão sempre maiores que os alheios porque são os únicos a ser sentidos. No entanto, é quando buscamos compreender o outro que somos capazes de desenvolver empatia, solidariedade e ações efetivas que mudam uma realidade.
Inevitavelmente, a questão sobre quem define que a terra existente pertence alguém vem à tona. Em um mundo utópico, todos deveriam ter suas casas, alimentação saudável e qualidade de vida. Porém, para isso acontecer é necessário ter dinheiro. É quando o ter é mais importante que existir. Uma vez que se você não tem dinheiro, não compra uma terra, não constrói uma casa, muito menos pode investir em alimentos agroecológicos.
Fica ali, jogado à própria sorte. Dependente da boa vontade de quem tem e quer ajudar. Fica ali como alvo de questionamentos. Por que um homem adulto se submete a viver de forma miserável? Por que não procura um emprego? Mudar é possível, mas há pessoas aprisionadas em seus próprios pensamentos. Ninguém sabe quais traumas ele passou. Quais escolhas o levou até ali. Ninguém sabe. Ninguém perguntou.










